O Céu como metafora (O Estado de S.Paulo)

Camila Molina

Fevereiro, 2016

Revelações e ausências:um ato continuo

Felipe Scovino

fevereiro, 2016

O céu como metáfora

Camila Molina

fevereiro, 2016

Entre o ceu e a terra

Marco, 2004

O devir do porvir

Janeiro, 2008

Objeto da Pintura

Sonia Salzstein

Outubro, 1985

Conversa com Marina Saleme

Daniela Bousso

Junho, 2003

Paisagem Interior

Angelica de Moraes

Agosto, 2003

De chuva, quadros e baratas douradas

Fernando Oliva

Marco, 2004

Parecer e Aparecer

Alberto Tassinari

Novembro, 1997

Quatro, tres, dois, um..

Caue Alves

Junho, 2006

I AM STILL ALIVE

Lisette Lagnado

Outubro, 2001

A presença do ausente

Cauê Alves

Março, 2009

Os corretivos líquidos cumprem sua função ao encobrirem erros de grafia com tinta branca. Mas além de apagar uma palavra mal empregada ou que escapa à norma, o corretivo pode ter outros sentidos. Ele indica que há algo entre o que foi apagado e o novo gesto. É índice que torna presente algo que não está mais aí. Na mostra Liquid paper, de Marina Saleme, o que importa não é tanto a função literal de corrigir, mas o sentido do refazer, de um retorno ao estágio anterior que o tempo objetivo impossibilitaria, uma vez que a volta já pressupõe a consciência que antes não se tinha.

Não é de hoje que a pintura está livre para dispensar cânones e paradigmas que permitiam um julgamento sobre o certo e o errado. Portanto, a princípio, não há erro em pintura, uma vez que não há gramática pré-definida. Especialmente no caso de Marina Saleme, o processo se dá a partir da construção de camadas em que figuras surgem, são cobertas e repintadas. Assim, o espaço vai se adensando conforme a matéria da tinta é sobreposta. Há em seu trabalho um constante recomeço que é também uma procura incessante. Tudo se passa como se as soluções já estivessem no interior da pintura, no fundo da tela, e fossem parcialmente recuperadas. A profundidade da pintura é tecida pelo avesso, num movimento do fundo para o primeiro plano e vice-versa. Mas nesse processo, ao contrário do mecanismo de uma tela de computador, nem todas as “imperfeições” são apagadas. Parte da memória do fazer da pintura é presente depois que o trabalho é dado por acabado. De fato, é do embate entre o feito e o refeito que sua pintura se configura.

Na linguagem falada, mesmo que o orador corrija uma frase ou um termo mal pronunciado, não há como voltar atrás. Não dá para retornar no tempo e refazer o discurso. Na pintura o processo é semelhante, mas como o público não acompanha de perto a sua elaboração o que se vê é um conjunto de camadas simultâneas, desde as opacas até as mais transparentes. Diante da pintura de Marina Saleme não sabemos ao certo o que está na frente ou no fundo, o que veio antes ou depois. O tempo de sua pintura não é objetivo, ele se apresenta de modo não linear. Trata-se de uma profusão de tempos concomitantes, que reúnem meses de trabalho. A pintura aparece como um conjunto de gestos sincrônicos que não se mostram a partir de um processo evolutivo. Todas as pinceladas coincidem no presente e no campo da tela, mesmo que estejam submersas e cobertas por outras. Mas um presente que carrega parte do processo que o originou e um pouquinho do futuro: a própria recepção do trabalho.

Nas pinturas recentes da artista há continuidade nos movimentos que formam espécies de linhas. Uma pincelada se enlaça na outra e na seguinte. E entre elas surgem figuras preenchidas por massas de cor que estavam no fundo ou que talvez vieram mais tarde. Em vez de estruturas retas compostas de losangos, as telas atuais são cheias de arabescos. Entre um ponto e outro há mais desvios, curvas e ornamentos. O resultado é também uma grade que estrutura a pintura, mas com formas mais orgânicas. Em algumas telas, como Fortuna, círculos parecem cair de áreas mais carregadas e densas. Uma espécie de chuva que não é apenas espaço preenchido, porque tão relevante quanto ela é o que está entre um círculo e outro e que não é exatamente o fundo. A pintura de Marina Saleme parece desfazer a regra de que para toda figura percebida há um fundo. O espaço intermediário entre figuras é o protagonista de vários trabalhos.

E é do que está entre que sua pintura se alimenta, entre o significante e o significado, entre a figura apagada e o seu retorno, entre o explícito e o implícito. Marina Saleme torna visível o que pode haver entre o necessário, o que não poderia ser diferente e que é imprescindível, e o contingente, o indeterminado, que é pura liberdade.

Cauê Alves é professor do curso de arquitetura e urbanismo da Escola da Cidade e docente da FAAP. É curador do Clube de Gravura do MAM-SP e colaborador de diversas publicações sobre arte.

telas-de-marina.jpg
pinturas-em-que-o-céu.jpg
confete.jpg